outubro 20, 2007

Amor Fatis

E tudo voltava em sua memória, como se tudo estivesse gravado em um filme.Revia as cenas de seus erros repetidamente, e , cada vez eles apareciam de maneira diferente, cada vez mais hediondos.Palavras mal-ditas, atos impensados e lágrimas inexistentes.
Queria poder esquecer de tudo, apagar a História e refazê-la, sem cometer nenhum erro.Ou melhor, era muito trabalhoso refazê-la por inteiro, seria melhor apenas..editar suas memórias (em edição não-linear, a própria lógica que a norteava não era linear!).
Justificativas, desculpas que na hora pareciam verdadeiras, más-intenções, boas intenções, erros, tudo o que tivera feito até então eram erros.Sabia disso, podia ver em sua mente,e no olhar de reprovação-passiva de todos a sua volta.
Não é questão de culpa- pensava- não quero participar de um juri, muito menos de um julgamento. Só depois de segundos analisando melhor, percebia que ela mentia em seus pensamentos, contabilizando assim, mais um erro para sua lista quilometrica.
Desculpas não faziam sentido, nem o fato de se importar com quem discutia fazia sentido.Errava,errava,errava.
E as imagens, doces imagens, que foram antes suas amigas, que foram antes compreensíveis (até certo ponto), passaram a torturá-la.A projeção se tornou mais rápida, acompanhou o movimento de seus olhos. Só falta a Nona de Beethoven, pensou debochadamente.Mas a música não tocou, as imagens eram apenas...figuras,desenhos desanimados a dançar.
Foi assim que ela aprendeu que , embora seus erros fossem perseguí-la ad eternum, era ela a proprietária da memória, era ela a editora, roteirista e co-diretora de sua História; era ela a dona de seu destino e de uma parte do destino dos outros (temeu ao saber que a recíproca era verdadeira, mas essa não era informação nova para ela:sempre fora afetada por aqueles que amava); era ela a torturadora e a torturada.
Os erros permaneceram, não tinham como sumir. As memórias foram deslocadas, recalcadas e transformadas, e, mesmo assim , mostram o pretérito mais que imperfeito. E ela?Ela vive (verbo intransitivo) deixou de apenas sobreviver (verbo transitivo indireto).

Um comentário:

João disse...

Interessante.

Você escreve com uma metralhadora? O ritmo parece ditado pelas balas de uma arma automática.